A Fuvest fez uma escolha surpreendente em todos os sentidos: livro angolano, de um país lusófono, que narra de maneira bastante realista e sem estereótipos, uma guerrilha, no caso a do Movimento Popular de Libertação de Angola. O MPLA surgiu no fim dos anos 1950 da fusão de vários pequenos grupos anticoloniais que organizou uma luta armada contra a dominação colonial de Angola por Portugal.

A guerrilha, portanto, é o contexto em que a narrativa se desenvolve e Mayombe é o lugar em que há uma base dessa guerrilha, embora o Mayombe assuma quase uma personalização, uma prosopopeia a fim de tornar o local da guerrilha também um personagem:

O Mayombe tinha aceitado os golpes dos machados, que nele abriram uma clareira.

Quase todos os personagens não têm nome, somente alcunhas que revelam alguma característica mais forte de cada soldado, há o Sem Medo, o Teoria, o Milagre, o Verdade e por aí vai, uma maneira de proteger a identidade dos membros.

O livro é composto por cinco capítulos, epílogo e glossário, porém, dentre os vários motivos por torná-lo literariamente rico e original é o foco narrativo que muda com bastante frequência dentro de um mesmo capítulo, o que dá uma visão mais imparcial e mais ampla dos fatos. Neste momento, algum personagem pede passagem e passa a narrar a história a partir da sua visão, do seu ponto de vista dentro da organização, identificado também pelas letras em itálico, até voltar à narrativa em terceira pessoa.

EU, O NARRADOR, SOU MUNDO NOVO

Outro motivo que faz com que estejamos diante de um texto literariamente rico são os assuntos abordados, os diálogos entre os personagens, em nenhum momento, parecem enfatizar a descrição de uma guerrilha e sua luta, isso porque são muito complexos, capazes de expressar uma leitura de mundo e de sua realidade extremamente lúcidas e com um forte teor filosófico, sobretudo marxista.

São abordados temas como a necessidade da formação marxista para um guerrilheiro revolucionário, a força que um homem deve ter para lutar, as dores que deve aguentar em prol da luta e de sua dignidade pessoal; valorização da identidade cultural. Há também espaço para a traição conjugal e crítica à visão judaico cristã herdada do colonizador português, cujo machismo implica no abandono sumário e na aplicação de castigos à mulher que procura outros parceiros bem como na exigência do perdão da mulher ao homem que comete a mesma traição.

As dificuldades das relações humanas são amplamente discutidas, no que tange ao poder, a amizade, a camaradagem entre os soldados.
O feminismo também é bastante refletido através da única personagem feminina e nomeada: a sensual Ondina.

Há uma forte crítica ao tribalismo africano, cuja força, afeta a imparcialidade nas tomadas de decisões, nas amizades, quando não nos rumos que um combate poderia ter, caso a noção de tribalismo não fosse tão forte. Embora seja um fenômeno africano, há uma lúcida comparação com o nacionalismo europeu, universalizando um problema que se torna cada vez mais difícil de tratar principalmente nos dias de hoje, se o livro não fosse escrito em meados da década de 70.

Mayombe é uma narrativa bastante reflexiva que tem como base a dialética marxista como fundamentação teórica para a compreensão não só da guerrilha como também da vida de seus personagens, pois trata-se de um grupo de guerrilheiros altamente politizados, formados no combate revolucionário e que têm a exata noção dessa necessidade para que a luta valha a pena que não se desfaça pelo cansaço ou por falsas ilusões e mantenha-se para sempre baseada nos princípios de igualdade e justiça.