Uma das características mais marcantes da obra de Guimarães Rosa é escrever em prosa poética e com ela murmurar no ouvido do leitor através de devaneios inconscientes, fazendo-se uso de metáforas estranhíssimas para definir o real e o fictício, para separar o fato da imaginação.

Percebe-se que quanto mais próxima da dureza e da liberdade do sertão, mais a vida navega sem muito controle, intimamente ligada aos transtornos da natureza com suas picadas, chuvas ou sol excessivos, pedras, calor, espinho, sede, rio, cavalo, homem, morte, vingança, honra… A palavra jorra como um rio, cheio de meneios, curvas, oscilações, um cerimonioso e respeitoso trato com a palavra que distancia e apaixona o leitor pela história e pelo cenário.

Neste conto, um dos mais perfeitos escritos em língua portuguesa, o personagem principal é emblemático porque representa, inicialmente, a bravura, a violência e o desprezo à vida de um cabra macho do sertão. Também conta a história de um “pecador” que se vê no necessário e inevitável caminho de mudar, seu nome: Augusto Esteves.

Nhô Augusto, como é tratado, passa por todas as expiações e castigos que uma alma cristã é capaz de suportar. Carrega uma tremenda culpa por ter sido mau marido, relapso com sua filha, valentão, injusto e egoísta com todos. Foi massacrado com gosto pelos próprios capangas, revoltados com sua crueldade e arrogância. Atormentar, subjugar, negligenciar e matar faziam parte da existência de Nhô Augusto, até que o destino lhe pegou pela perna.

Depois de escorraçado e tido como morto devido a uma tremenda surra a mando do major, Nhô Augusto é encontrado por um negro velho, morador de uma tapera cravejada no meio do mato. O velho e sua companheira cuidaram dele com muita dedicação, nem ele mesmo sabia por quê. O bondoso casal, à medida do possível, fazia os curativos, as tipoias para imobilização dos membros quebrados e, sem outra alternativa, nhô Augusto esperava. Aguardava o corpo curar-se no mais absoluto repouso.

E o tempo foi passando, muito lentamente, porque as dores e as feridas eram inúmeras e os ossos quebrados também. Desse modo, nhô Augusto viu-se obrigado a passar meses olhando somente para um ínfimo pedaço do mundo, de um único ponto visível de seu longo repouso, entrevado em uma tapera no meio do mato.  Essa situação acabou por obrigá-lo a repensar toda sua trajetória de vida, tinha tempo de sobra para pensar e remoer lembranças. Desse tédio interminável nasceu uma consciência que fez com que sentisse uma enorme culpa e um grande remorso por todo mal que impôs a tantas pessoas, sobretudo sua mulher e sua filha.

O tempo foi passando, tempo este marcado pelas estações do ano, pelas delicadas e constantes mudanças da natureza e dos humores do personagem. Começou a ficar de pé com umas muletas construídas pelo velho… Assim, aos poucos, voltava a sentir-se fisicamente melhor, tinha mais autonomia e as dores melhoravam.

Quando Nhô Augusto percebeu-se vivo, mas todo arrebentado, com uma humilhante marca de ferro de boi queimada em uma das nádegas, odiado e temido por todos, pede para mãe Quitéria chamar o padre e converteu-se. Jurou bondade e dedicação ao próximo. Aconselhado por este para afastar-se da cidade e deixar a vingança de lado, Nhô Augusto toma outro rumo na vida, agora voltada para sua libertação espiritual.

Largaram à noite, porque o começo da viagem teria de ser uma verdadeira escapada. E, ao sair, Nhô Augusto se ajoelhou, no meio da estrada, abriu os braços em cruz, e jurou:

– Eu vou p’ra o céu, e vou mesmo, por bem ou por mal!…

E a minha vez há de chegar…P’ra o céu eu vou, nem que seja a porrete!…E os negros aplaudiram, e a turminha pegou o passo, a caminho do sertão.

Foram todos para a província do Tombador, na única terra que não havia perdido por sua irresponsabilidade. Lá cuidou dos velhos e, com muito gosto, ajudava quem mais precisasse. Carregava defuntos, desatolava bois, era tido como meio doido e meio santo pelos habitantes do lugar. Meio doido por ficar ruminando conversa consigo próprio e meio santo por estar sempre disponível para quem precisasse de sua ajuda.

Trabalhou de sol a sol no roçado pesado, criou um lar para os três, Nhô Augusto e mais o casal de pretos que cuidaram dele. Na invernada, em épocas de chuva, trabalhava mais que os próprios empregados, tudo para expurgar sua culpa e fazer com que fosse aceito por Deus, assim que morresse.

Uma de suas maiores provações foi o encontro com o bando de Joãozinho Bem-Bem. Simpatizou-se com o líder de cara e por isso deu abrigo aos homens em suas terras, dispondo do bom e do melhor para seus camaradas de alma. Com eles, sentiu-se vivo novamente. Sua natureza de tinhoso matador nunca o abandonou, somente o desejo de entrar no céu é que o fazia determinado a não aceitar o convite de integrar e partir para a liberdade do sertão com o grupo de bandoleiros.

Passados alguns meses, certo dia, nhô Augusto sentiu-se recuperado. Olhou tudo o que construiu, a beleza das plantações, começou a gostar do canto dos muitos pássaros, foi quando percebeu que começou a interessar-se por mulheres novamente, o que o deixava com a alma leve e feliz. A seu modo, passou a sentir que aquelas terras eram pacatas demais, que sua vida estava monótona e que precisava seguir seu destino: – ir para o céu nem que fosse a porrete. Com protestos do velho casal e da vizinhança, quis partir naquele dia mesmo, a pé, porém, partiu com um burro, pois segundo mãe Quitéria, lembraria mais o caminho do próprio senhor.

Nhô Augusto segue seu destino com a alma lavada e passa a ter uma visão de mundo mais idílica. Passa a apreciar a natureza, o vôo dos pássaros, a beleza das florestas, dos rios, o contato com as gentes, a boa prosa e a cabeça leve na hora de dormir. Até que o destino lhe coloca frente a uma situação redentora: livrar uma família de pessoas simples da vingança prometida por um ato de um filho já distante. Nhô Augusto acha injusta a vendeta e parte em defesa da família.

É interessante notar que a morte tão sonhada e planejada acaba concretizando-se pela força de seu desejo, o de ir para o céu por bem ou por mal. Nhô Augusto entra numa briga de facas com o grande amigo Joãozinho Bem-Bem, em defesa daquela pobre família.

E o povo, enquanto isso, dizia: – “Foi Deus quem mandou esse homem no jumento, por mor de salvar as famílias da gente!…” E a turba começou a querer desfeitear o cadáver de seu Joãozinho Bem-Bem (…)

Nhô Augusto falou enérgico:

– Pára com essa matinada, cambada de gente herege!… E depois enterrem bem direitinho o corpo, com muito respeito e em chão sagrado, que esse aí é o meu parente seu Joãozinho Bem-Bem! (…)

– Traz meus filhos, para agradecerem a ele, para beijarem os pés dele!…Não deixem este santo morrer assim…P’ra que foi que foram inventar arma de fogo, meu Deus?! (…)

Então, Augusto Matraga fechou um pouco os olhos, com sorriso intenso nos lábios lambuzados de sangue, e de seu rosto subia um sério contentamento. (…)

– Põe a benção na minha filha… seja lá onde for que ela esteja…E, Dionóra…Fala com a Dionóra que está tudo em ordem!

Depois morreu.

E assim, morreu em paz com os homens e com a própria consciência. João Guimarães Rosa engendra um universo único, com regras de linguagem particulares, criadas através de sua experiência de homem do sertão. Como diplomata e falante de vários idiomas, o sertanejo aparece como uma figura mítica, dono de um linguajar próprio, pertencente ao inconsciente coletivo dos homens, simbolizando a necessidade da vida de superação. O homem rústico margeia uma realidade inóspita, ao mesmo tempo fantástica. Talvez a fantasia esteja relacionada diretamente ao grau de tolerância e paciência que devemos ter frente aos entraves naturais da vida. A fantasia serve com o propósito de narcotizar o contato difícil entre o homem e a sobrevivência diária. Esta marca está presente em todos os contos, sobretudo em A hora e a vez de Augusto Matraga, quando os homens partem em busca do mistério presente na quase infinitude do sertão, na complexidade de suas relações, de suas imagens explicadas através de metáforas que soam paralelas à realidade, como se cada indivíduo tivesse de compreender o inexplicável, o inexorável da existência terrena.